segunda-feira, 11 de outubro de 2010

E se eu dissesse que eu paro muito pra pensar, às vezes? No muito que poderia ter sido e não foi. No muito que eu poderia ter dito, mas não podia. Porque eu nao sabia. Eu nao fazia ideia.

Não acredito que teria sido diferente. Mas era preciso.
Acho espantoso que todas as mudanças pequenininhas que a gente sofre todos os dias possam resultar numa mudança absimal no final de muitos deles.
Eu nao precisava de tanta coisa, eu nao precisava e nem queria sentir nada muito forte, eu nao queria ficar procurando a saída, eu nao podia tornar simples o que sempre me manteve na dúvida e o que, vindo de mim, sempre te fez duvidar. Tudo isso transparecia em todos os pedacinhos quebrados que eu carregava dentro de mim.

E tudo continuaria igual. A distância permite a visão mais simples de todas, justamente porque enfrenta-se sentimentos muito mais fortes do que a incerteza, a vergonha de receber nãos e o medo de errar e também o de dizer que gosta. Besteira.

O fato é que, hoje, me parece incogitável deixar de lado o que eu sinto pra poder me manter sem mais nenhum pedaço partido. Eu quero mais é acumular todos os pedacinhos, cicatrizes, cinzas, e o mais que eu puder carregar e transformar em memórias. E aí eu deixo pro tempo o trabalho de fazer tudo isso virar inteiro de novo. Deixo o tempo trabalhar, porque ele é simplesmente demais.

Te livra dos teus, porque eu me livrei dos meus. Eu esqueci todos os fantasmas.

Então não duvida, não esquece, não tenta saber se foi ou não foi. Todas as vezes que você suspeitou, era verdade. Mesmo que fosse do meu jeito.

domingo, 3 de outubro de 2010

Fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. Fica parado à porta uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco. Em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que eu estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando. Sei que está azul, ou verde, ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse movimento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela. E só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas segurando essa coisa qualquer é que nos olhamos e começa a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias.

Faço um movimento brusco e venho à tona como se voltasse a mim, e vou saindo lentamente do azul, sento na areia áspera e fico olhando a superfície que volta a ser polida e fria como vidro. Antigo medo, que me encara com olhos que guardam algas de madrepérola no claro fogo do fundo, e que recusa me matar de azul, porque talvez eu não suportasse, e não posso morrer porque é preciso, ainda, sacudir a areia da roupa branca e estender a mão para o livro, cigarro ou estrela que sobe em outras mãos douradas. E sorrir, então, e dizer bom-dia, boa-tarde, talvez boa-noite, e convidar a sentar, como se costuma nessas situações, e explicar sempre que não há muito onde sentar, e espalhar cinzeiros, fechar a porta, escolher rapidamente um disco lento e abandonar a coisa que estivesse fazendo para sentar no canto oposto da cama, talvez cruzar as pernas, acender um cigarro, abrir um livro, olhar uma estrela e falar ouvir durante horas coisas duras e inúteis, e de repente me perceber novamente deslizando para um mar aberto feito boca, convite na esquina, veludo atrás de vidraça, e não ceder porque não seria de esperar que eu cedesse agora, nessas situações, embora me consuma, e penso. Então sorrir e afastar com delicadeza as inúteis durezas até que nos aproximemos das tardes no parque, e era sempre outono. E de repente como girar numa roda louca que jogo de novo eu mesmo neste mesmo parque, com este mesmo livro ou esta mesma folha onde vou desenhando devagar uma estrela enquanto o cigarro queima em fogo claro, e depois ler ou ficar à toa olhando os verdes fumando à espera que um pajem passe de mãos sozinhas que faça encher de encantos as algas de madrepérola me seguram pelos pulsos e eu não resisto e já não importam os parques os pajens as folhas os livros os cigarros as estrelas as guitarras a loucura dos líquidos derramados sobre o tapete que tudo absorve há dezesseis anos: apenas essas algas nos meus pulsos e os tesouros as sereias os reis com suas capas de arminho os atlantes os castelos e parques sem adolescentes sem folhas nem livros em árvores sem esperas e bancos despidos de inscrições parques verdes de paz e uma coisa grita pouco abaixo do meu centro escuro mas eu a trato como o lenhador à serpente entanguida eu a levo para casa preparo fogo e alimento e abro as janelas e portas para voltar correndo às algas de madrepérola que agora se afrouxam e me soltam lentamente para me abandonar outra vez na mesma praia de areia seca olhando esse mar frio que se recusa a me matar de azul e me dói exatamente como se eu fosse um menino pobre a quem se mostrassem um doce da janela de um carro em alta velocidade. Vou escrevendo poemas como Anchieta pelo corrimão branco da escada e abro uma porta escura para a rua cheia de cotovelos, dentes rangendo, hesitações, temores, diplomas e [ilegível]. Depois volto devagar por um caminho que já não consigo decifrar, e me perco em labirintos pela sala vazia, ligodesligo ingridbogarthumphreybergmann e o leite escorre pela minha garganta seca de areia, de água salgada, de ar rarefeito, e tento novamente descobrir tesouros escondidos pelos cantos, como ninhos de Páscoa, e tento reescrever poemas desfeitos pelo vento no corrimão branco, e tudo de repente se fecha em torno de mim como uma bola cheia de espinhos, mas sorrio, contido, e dou as costas para a porta e depois volto a fazer coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o cé pela janela. E não espero que outra vez um toque quente como um olhar fixo me queime a nuca e me voltar para encontrar um valete de paus, de mãos estendidas para esse objeto qualquer caído há pouco, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela.

(Caio F Abreu)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

E sabe porque é que eu falo tão alto? É que assim você não ouve esse barulho ensurdecedor de sangue correndo pelas minhas veias. E eu fico surda, a cada batida.

domingo, 12 de setembro de 2010

Existem coisas que eu gosto de observar e guardar para mim. Talvez porque eu saiba que, para muitas pessoas, não vá fazer diferença nenhuma na vida delas. Mas para mim faz. Dentre todas essas coisas, as que eu mais gosto de observar, são como os meus sentimentos mudam do dia para noite. Mudam não, se transformam.
Até pouco tempo, eu achava que seria impossível ouvir um 'eu te amo' da boca de certas pessoas sem me remeter há um passado prazeroso. Mas hoje, ouvindo, sentindo o cheiro que me era familiar, senti que o amor se esvairiu pelas minhas mãos ou por alguma dessas esquinas que eu passei a freqüentar. Percebi que a coisa que me prendia a tudo isso já não estava mais lá. O 'meu' já não estava lá. Era apenas ele, o que eu havia conhecido há um ano atrás.
E percebi que o que eu ouvi sexta feira faz sentido. O que eu escutei durante toda a minha vida fez sentido. Eu sou forte emocionalmente e ao mesmo tempo sou incrivelmente sensível. Sou chorona, sou insuportável, sou egoísta, estressada, irritante, boca aberta, estranha, mal humorada, simpática, idiota, besta, me iluso fácil e me apego às coisas mais fácil ainda. Mas essa sou eu, e nada que eu diga ou faço pode mudar isso. Mas eu me 'transformei'. Eu tentei mudar certos atos, mudar certos hábitos, tentei mudar. E isso me fez bem. E me trouxe ótimas pessoas.
Transformação. Aquilo que eu sempre peço na virada do ano, que vem em seguida do pedido de mudança e antes do pedido de uma vida melhor. A única coisa que eu nunca percebi, foi que para que essa transformação ocorresse, eu teria que reescrever minha vida, meus amores, meus ideais. E foi isso que eu fiz. Não me arrependo disso, e nem do que essa transformação trouxe, sendo coisas boas ou ruins. Isso faz parte da minha história, e nada muda isso.
Eu tenho as melhores pessoas do mundo ao meu lado. Tenho a família que a maioria das pessoas desejam, tenho alguns amores espalhados pelo sudeste e alguns outros que ainda não foram descobertos e tenho tudo que eu queria, nesse momento. Busquei durante muito tempo um alguém real para que eu pudesse entregar aquela coisa brilhante que eu achei. Encontrei, e em uma semana entreguei. Mas a coisa brilhante se transformou e voltou para mim. E foi então que eu percebi que eu nunca vou me livrar de algo que nasceu comigo. Nunca vou conseguir doar, sem que a outra pessoa queira receber e que todas as minhas decisões, de um jeito ou de outro, vão me levar ao caminho que eu, vira e mexe, tento fugir. Não fujo mais, nem me escondo. Estou feliz, estou em paz. E isso, ninguém tira, não agora.

sábado, 11 de setembro de 2010

E você? Você tem nome?
Melhor não ter. Única como é - e nem por um instante pense o contrário -, você também representa cada amante de coração partido desse planeta, cada namorada que levou bolo, cada mãe solteira, cada esposa abandonada, cada noiva deixada chorando no altar, cada viúva, cada órfã, cada divorciada, cada criança abandonada. Você é a carta de amor não enviada. Você é o aniversário esquecido, a promessa quebrada, as 30 moedas de prata, a pergunta que pendura através de eras: "Porque que abandonastes?"
Tudo isso sim.
Por certo, seu coração dói, mas como eu, você não é inteiramente inocente. Porque você também já teve seus devaneios, suas ilusões, seus sonhos, seus flertes e pequenas traições de carne ou de espírito.
Você tem vinte e nove anos (ou dezenove, ou quinze). Você mora com seus pais. Você arruma suas coisas. Você cozinha para um. Mas você se esforçou ao máximo, não foi?
Você vai de carro para a escola toda manhã. Você finge ser o que não é, conversa com os seus amigos, conversa com os seus inimigos, vai à casa de amigos e inimigos, visita seus parentes. Jogou fora os presentes que ele te deu. Lavou o cheiro dele das suas roupas. Mas ainda assim, de madrugada, você se pega folheando os livros da memória, assim como eu. (Seus passeios, seus brincadeiras. O quanto você o amava - aquela fé toda.)
Às vezes você faz auto-critica. Dependente demais, você pensa. Achando que ele ia ficar ali para sempre.
Mas ai, mais tarde, você se sente como eu, esmagada pela tristeza novamente. Você percebe que foi ele que foi embora, ele que abandonou você. O que mais doía, tenho certeza, era a súbita certeza de que o amor nunca mais seria amor e que você não tinha mais nada em que acreditar.
Mas passou, e agora você compreende, tal como eu, que a frase "encarar de frente" significa "assentir, concordar". E você não concorda. Todos nós temos os nossos próprios demônios. De um jeito ou de outro, somos perseguidos pelos fantasmas do nosso passado, nosso amores perdidos, nossas burradas e nossas promessas quebradas. Mas você está viva garota. E merece créditos por isso, onde quer que a sua fé tenha ido.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eu gosto quando todas as minhas certezas ganham um "in" para precedê-las.
E tu vens de longe, com a bolsa cheia de "ins". E quando te vais, restam a mim os bolsos cheios de nada, nada este que eu apalpo apenas para dar alguma função para as minhas mãos nervosas. Quando as in-certezas me tomam por inteiro, dirijo a ti o mais confuso dos meus olhares. E neles tu vês escrito o que bem entendes.
Se refletes o que sinto como um espelho, prefiro apagar a luz do que ficar me desviando de desejos incertos, confusões montadas e histórias sem fim.

Não poderias saber... nada de mais absoluto sobre ela, a não ser ela própria. Fazendo algumas perguntas, tu ouvirias respostas. Nas respostas ela poderia mentir, dissimular, e a realidade que estava sendo, a realidade que agora era, seria quebrada. E pois, não fazendo perguntas, tu aceitarias a moça completamente. Desconhecida, ela seria mais completa que todo um inventário sobre o seu passado. Descobririas que as coisas e as pessoas só o são em totalidade quando não existem perguntas, ou quando essas perguntas não são feitas. Que a maneira mais absoluta de aceitar alguém ou alguma coisa seria justamente não falar, não perguntar - mas ver. Em silêncio.