sexta-feira, 15 de outubro de 2010
E quando você estiver triste, fique triste; quando quiser chorar, chore, você tem esse direito, e precisamos disso para limpar nossa alma, mas meu amor, não permita que isso dure para sempre. E saiba que por mais difícil que seja um momento, tenha calma; tenho certeza que a vida lhe reserva uma felicidade incontável. Enquanto ela não chega, treine sua paciência. Nunca espere uma pessoa partir para dizer a ela o quanto a ama e o quanto é especial, pois ai já será tarde demais. Por isso seja feliz e viva cada momento, pois aquele instante será único. Faça novos amigos e não se esqueça dos velhos, pois é tão necessário quanto o ar que sustenta tua vida. Os melhores e os piores dias da tua vida serão ao lado deles. Coloque seus sentimentos na frente dos demais, a tua felicidade é mais importante que qualquer outra coisa e pessoa. E viva, sempre.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Não acredito que teria sido diferente. Mas era preciso.
Acho espantoso que todas as mudanças pequenininhas que a gente sofre todos os dias possam resultar numa mudança absimal no final de muitos deles.
Eu nao precisava de tanta coisa, eu nao precisava e nem queria sentir nada muito forte, eu nao queria ficar procurando a saída, eu nao podia tornar simples o que sempre me manteve na dúvida e o que, vindo de mim, sempre te fez duvidar. Tudo isso transparecia em todos os pedacinhos quebrados que eu carregava dentro de mim.
E tudo continuaria igual. A distância permite a visão mais simples de todas, justamente porque enfrenta-se sentimentos muito mais fortes do que a incerteza, a vergonha de receber nãos e o medo de errar e também o de dizer que gosta. Besteira.
O fato é que, hoje, me parece incogitável deixar de lado o que eu sinto pra poder me manter sem mais nenhum pedaço partido. Eu quero mais é acumular todos os pedacinhos, cicatrizes, cinzas, e o mais que eu puder carregar e transformar em memórias. E aí eu deixo pro tempo o trabalho de fazer tudo isso virar inteiro de novo. Deixo o tempo trabalhar, porque ele é simplesmente demais.
Te livra dos teus, porque eu me livrei dos meus. Eu esqueci todos os fantasmas.
Então não duvida, não esquece, não tenta saber se foi ou não foi. Todas as vezes que você suspeitou, era verdade. Mesmo que fosse do meu jeito.
domingo, 3 de outubro de 2010
Fica parado à porta e eu nem vejo, estou de costas fazendo coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o céu pela janela. Fica parado à porta uma porção de tempo, e eu nem vejo, mas dura pouco. Em seguida algum toque quente como um olhar fixo começa a me queimar a nuca, então abandono o que eu estou fazendo, seja o que for, e não sei bem se me volto lenta ou rapidamente, para surpreendê-lo no momento exato de baixar os olhos e afastar a mão apoiada na parede, como se recém chegasse e não estivesse parado ali uma porção de tempo, olhando. Sei que está azul, ou verde, ou branco, talvez os três juntos, talvez outros ainda, talvez nenhum: mas me volto rápida ou lentamente, e nesse movimento qualquer coisa que tenho entre as mãos cai ao chão, e antes de dizermos qualquer coisa há a necessidade quase milenar de curvar-se para apanhar o objeto caído, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela. E só depois ou durante o tempo em que vêm subindo no ar as mãos douradas segurando essa coisa qualquer é que nos olhamos e começa a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias.
Faço um movimento brusco e venho à tona como se voltasse a mim, e vou saindo lentamente do azul, sento na areia áspera e fico olhando a superfície que volta a ser polida e fria como vidro. Antigo medo, que me encara com olhos que guardam algas de madrepérola no claro fogo do fundo, e que recusa me matar de azul, porque talvez eu não suportasse, e não posso morrer porque é preciso, ainda, sacudir a areia da roupa branca e estender a mão para o livro, cigarro ou estrela que sobe em outras mãos douradas. E sorrir, então, e dizer bom-dia, boa-tarde, talvez boa-noite, e convidar a sentar, como se costuma nessas situações, e explicar sempre que não há muito onde sentar, e espalhar cinzeiros, fechar a porta, escolher rapidamente um disco lento e abandonar a coisa que estivesse fazendo para sentar no canto oposto da cama, talvez cruzar as pernas, acender um cigarro, abrir um livro, olhar uma estrela e falar ouvir durante horas coisas duras e inúteis, e de repente me perceber novamente deslizando para um mar aberto feito boca, convite na esquina, veludo atrás de vidraça, e não ceder porque não seria de esperar que eu cedesse agora, nessas situações, embora me consuma, e penso. Então sorrir e afastar com delicadeza as inúteis durezas até que nos aproximemos das tardes no parque, e era sempre outono. E de repente como girar numa roda louca que jogo de novo eu mesmo neste mesmo parque, com este mesmo livro ou esta mesma folha onde vou desenhando devagar uma estrela enquanto o cigarro queima em fogo claro, e depois ler ou ficar à toa olhando os verdes fumando à espera que um pajem passe de mãos sozinhas que faça encher de encantos as algas de madrepérola me seguram pelos pulsos e eu não resisto e já não importam os parques os pajens as folhas os livros os cigarros as estrelas as guitarras a loucura dos líquidos derramados sobre o tapete que tudo absorve há dezesseis anos: apenas essas algas nos meus pulsos e os tesouros as sereias os reis com suas capas de arminho os atlantes os castelos e parques sem adolescentes sem folhas nem livros em árvores sem esperas e bancos despidos de inscrições parques verdes de paz e uma coisa grita pouco abaixo do meu centro escuro mas eu a trato como o lenhador à serpente entanguida eu a levo para casa preparo fogo e alimento e abro as janelas e portas para voltar correndo às algas de madrepérola que agora se afrouxam e me soltam lentamente para me abandonar outra vez na mesma praia de areia seca olhando esse mar frio que se recusa a me matar de azul e me dói exatamente como se eu fosse um menino pobre a quem se mostrassem um doce da janela de um carro em alta velocidade. Vou escrevendo poemas como Anchieta pelo corrimão branco da escada e abro uma porta escura para a rua cheia de cotovelos, dentes rangendo, hesitações, temores, diplomas e [ilegível]. Depois volto devagar por um caminho que já não consigo decifrar, e me perco em labirintos pela sala vazia, ligodesligo ingridbogarthumphreybergmann e o leite escorre pela minha garganta seca de areia, de água salgada, de ar rarefeito, e tento novamente descobrir tesouros escondidos pelos cantos, como ninhos de Páscoa, e tento reescrever poemas desfeitos pelo vento no corrimão branco, e tudo de repente se fecha em torno de mim como uma bola cheia de espinhos, mas sorrio, contido, e dou as costas para a porta e depois volto a fazer coisas como escrever, limpar cinzeiros ou olhar o cé pela janela. E não espero que outra vez um toque quente como um olhar fixo me queime a nuca e me voltar para encontrar um valete de paus, de mãos estendidas para esse objeto qualquer caído há pouco, um livro, um cigarro, provavelmente um estrela.
(Caio F Abreu)